2 de abril de 2012

Primeiro livro nacional sobre a história do MMA será lançado nesta terça

Esporte que mais cresce no mundo e que explodiu de vez no Brasil depois do primeiro UFC Rio, realizado em agosto do ano passado, o MMA terá a partir desta semana o primeiro livro nacional que conta todo o processo de criação, proibição e ressurgimento da modalidade no país. "Filho teu não foge à luta", do repórter do SporTV Fellipe Awi, será lançado às 20h desta terça-feira, na Livraria Travessa do BarraShopping, no Rio de Janeiro.

A publicação conta com 320 páginas recheadas com mais de 50 entrevistas realizadas no Brasil e nos Estados Unidos e que ajudam a reconstituir o passado do MMA com base nos relatos dos principais envolvidos: atletas, empresários, jornalistas e especialistas.

Capa do livro "Filho teu não foge à luta" (Foto: Divulgação)

Um livro para quem quer entender o esporte

Fellipe Awi nunca foi um aficionado por MMA. A ideia de escrever o livro surgiu em 2007, quando ele fez uma matéria para "O Globo" sobre um evento de vale-tudo na periferia. Eram torneios pequenos do subúrbio do Rio e da Baixada Fluminense que davam bolsas de 100 a 200 reais e que eram uma espécie de bico para quem queria completar a renda. Durante a produção da matéria, Awi conheceu personagens do esporte e recebeu a sugestão de Bruno Porto, ex-colega de jornal e hoje na editora Intrínsica, de escrever o livro.

Rorion Gracie, criador do UFC (foto: Arquivo pessoal)

Por coincidência, Awi foi para o SporTV e lá comandou um especial para o SporTV Repórter sobre MMA e boxe. Com novos personagens e mais conhecimento sobre o esporte, a vontade de contar a história do MMA ganhou ainda mais força.

- Nunca liguei (para o MMA), via lá e não entendia nada. Os caras no chão e não eu entendia nada. Só que, quando comecei a entrar nesse mundo, gostei não do esporte em si, mas da história. Vi que era uma história maneiríssima. Para começar, descobri que era um esporte criado por brasileiros, desde os Gracie na década de 20. É um esporte nacional de fato. E mais: descobri que o principal evento, que é o UFC, foi criado por um brasileiro (Rorion Gracie) - explicou Awi.

No livro, o leitor também vai poder descobrir (ou recordar) que o MMA já teve grande espaço na mídia brasileira. O próprio "O Globo", por exemplo, já estampou lutas de Hélio e Carlson Gracie na primeira página no início do século passado.

A TV Continental, na década de 60, chegou a ter um programa sobre MMA, com lutas exibidas ao vivo. Até que João Alberto Barreto, um dos alunos da família Gracie, quebrou o braço de um adversário ao vivo. Com o episódio, o programa saiu do ar, e o esporte foi proibido no estado da Guanabara.

- Conto tudo isso e conto também a retomada do esporte no fim dos anos 70 e início dos anos 80, com a rivalidade do jiu-jítsu com a luta-livre e o muai thay e uma nova geração de lutadores se formando ali. O MMA foi um esporte que foi criado aqui, desenvolvido aqui e tem os maiores ídolos junto com os Estados Unidos. Tudo isso me fascinou. E digo isso do ponto de vista de quem é novato no esporte. Não sou um especialista em MMA, não entendo luta de chão, por exemplo, nunca lutei jiu-jítsu, nunca lutei uma arte marcial, não sei explicar o estilo dos caras. Mas as histórias deles e a história do esporte são dignas de novela. Portanto, é legal frisar que o livro não é só para quem é especialista em MMA. Na verdade, é para pessoas como eu, que são curiosas e querem entender por que esse esporte explodiu - disse Awi.

Três maiores lutas da história

Dentre as diversas histórias do livro, Fellipe Awi sugeriu ao SPORTV.COM um aperitivo. Foi o encontro entre Rodrigo Minotauro, Royce Gracie e Hélio Gracie em um avião, durante voo de volta do Japão para o Brasil, em 2002, após os dois primeiros terem lutado na véspera no extinto Pride. Estariam ali reunidos os protagonistas das três maiores lutas de MMA da história? Para o mestre Hélio, sim.

Royce Gracie comemora uma de suasvitórias no UFC (Foto: Getty Images)

Confira trecho do livro:

"Mesmo para quem está acostumado ou viaja em classe executiva, o voo com quase 24 horas de duração entre o Japão e o Brasil, incluindo escala em Los Angeles, é um teste de paciência e criatividade. Nos sete anos em frequentou esse percurso, Antônio Rodrigo "Minotauro" desenvolveu uma rotina própria para fazer o tempo passar mais depressa dentro do avião. O bate-papo com os amigos e o pessoal da equipe sempre teve prioridade. Depois da primeira refeição, ele assistia a um filme. Em seguida, jogava futebol e, claro, MMA, no inseparável videogame portátil. Naquela noite (ou seria dia?), ele já estava no fim do ritual, quase pregando no sono, quando sentiu alguém tocar seu ombro. De pé, ao lado da poltrona, a figura imponente de Royce Gracie lhe oferecia a mão e um sorriso generoso. Minotauro levantou-se rapidamente, como se estivesse diante de uma autoridade, e cumprimentou o outro brasileiro. Logo Royce Gracie se sentou na poltrona ao lado, como se dissesse que, se um dos dois merecia uma reverência, essa pessoa era Minotauro. Na véspera, ele tinha protagonizado uma das mais sofridas lutas do vale-tudo. Sofrida, essa era a palavra certa. Ele ainda sentia os músculos pesados e as articulações pulsando. Inchado, o olho esquerdo não se abria por completo. Enquanto descrevia para Royce o que passou em cima do ringue, ouvia elogios do campeão do primeiro UFC. Minotauro se sentiu honrado porque sabia do estado de espírito do seu interlocutor naquele momento. Na mesma noite, numa luta com regras de jiu-jítsu, Royce fora derrotado pelo japonês Hidehiko Yoshida por estrangulamento (a família Gracie contestou o resultado porque o juiz interrompeu o combate sem que o brasileiro tivesse desistido ou apagado). Quando a conversa já perdia o fôlego, Royce chamou o pai, que também estava no voo. Hélio se aproximou exibindo uma simpatia que nem sempre lhe comum em um primeiro encontro. Cumprimentou Minotauro efusivamente. "O velho tima uma mão grande, rapaz. Fiquei impressionado", lembra. De tudo o que ouviu de Hélio, Minotauro guardou para sempre o desfecho da conversa. "Foi uma luta magnífica, campeão! Só pode ser comparada a do Royce com o Dan Severn e à minha com Kimura. São as três maiores lutas da história".

"Como de hábito, Hélio elogiava mais a luta do que o lutador. "Aquela vitória foi mesmo jiu-jítsu puro", reconhece Minotauro. De fato, o combate entre ele e o americano Bob Sapp é usado até hoje em várias academias de jiu-jítsu - mais do que muitas vitórias dos Gracie - para mostrar como a técnica no chão pode superar a força. Mas não é por isso que muita gente a considera a luta mais espetacular da história do MMA. A verdade é que em nenhum outro combate o espírito de Rocky Balboa, o boxeador interpretado por Sylvester Stallone, foi tão lembrado pelos fãs."

Felipe Awi vai contar um pouco mais sobre o livro durante participação no Redação SporTV desta terça-feira. O programa vai ao ar às 10h.

Fonte: SporTV.com

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